Estou há sete dias na Ericeira e faltam sete para me ir embora. Vim a trabalho e tudo parece uma monótona novidade. Num lugar onde tudo se pinta de azul e branco e um cheiro adocicado a peixe me invade os sentidos, deixo a janela aberta para ouvir o mar.
Quando cheguei, o mar de tão calmo, apenas se conseguia escutar o som das gaivotas que em voos rasos o sobrevoavam.
Estou aqui sozinha há sete dias. Numa pequena prisão no fim das obrigações, encontro prazer em hábitos tão invulgares como sair do trabalho e descer até à praia para ler um livro e ir molhar os pés na rebentação gelada das ondas.
A viver uma vida que não é a minha, numa casa que não é a minha, adopto a solidão dos espaços e o silêncio das palavras para conversar com alguns pensamentos.
Estou no fim de uma etapa que tem sido uma outra vida. Aquela vida que não queria viver desde o início mas que suportei até que, sem mais alternativa, a chamei de minha e por teimosia a quis levar até ao fim. Nessa outra vida, tirei o melhor que podia da persistência. Por fim, vou dar um passo em frente, sabendo que nestes dois anos nunca dei nenhum passo para trás.
Aqui, na Ericeira, espero tranquilamente por esse novo passo. Melhor presságio não haveria, se nesta vida que não é a minha, não fosse eu morar na Travessa do Caminho Novo.