23/11/2009


é sobre mim mas para ti que escrevo
pela confusão das palavras não ditas
do que movo e espanto
é sobre mim mas para ti que escrevo

é sobre ti mas para mim que canto
e choro na ideia de um dia não poder mais pranto
o corpo, ser
sim é para ti meu canto

é sobre mim e para mim imagem
que já nada vê no reflexo
do pouco que fui pensando
do muito que pensei fazendo
ser só isto, apenas

é sobre ti e para ti que finjo
a mentira que é, tudo, a verdade
do brilho encanto
dos passos que fui dando
é para ti que falo

é sobre tudo que rasgo
a poesia que outrora percebi
as mãos, tanta tinta, os dedos
levemente crio o novo
é sobre ele que invento o sonho

é sobre o sinto que não quero
e é sobre o pedaço que vou tendo
é sobre o sobre que vivendo passo
e é sobre o foi, que não sei ser
mas é sobre quem nunca vou ter

e é por ninguém que comigo danço

10/11/2009

25/10/2009

o meu amor perdeu a vida.
foi a vida que perdeu o meu amor.

22/10/2009


Lá e sempre,
O rio vai dar ao mar
E todo ele é maré, gente e canção.

O rio é de Janeiro, do ano inteiro
Dos dias e das demais medidas do tempo
Só não cabe nas palavras.

Saravá ao povo que se deixa posar, sem querer
Às grandes criações do poeta.

Saravá ao poeta.


O rio é mulher formosa
E a mão que enxuga a lágrima no rosto,
Mas é o sorriso que sai pelas ruas.

O rio só é homem quando se observa orgulhoso.

O rio é sempre foz,
Prestes a desaguar
A explodir, quem sabe.

E deixo os olhos pousar
E o corpo mergulhar nesse rio
Como se fosse para sempre o último abraçar.

O rio bebe-se aos poucos,
Gota a gota, pinga a pinga,
Mas bate rápido
É 100% alcoólico.

O rio é criança
Quando dança de pés descalços
Mas chora,
Órfão de pai.

Esse rio cheira a suor
A beijos misturados
Corpos incendiados
De alegria e desespero.

De ironia.

Os peixes desse rio não são peixes,
São polvos
Que nos agarram eternamente
E tingem os desejos de uma só cor.

O rio é longe,
E ficamos a vê-lo do pontão das objectivas.
Nunca é inteiro,
É afluente de si próprio.

O rio é cinza, poluído.
Verde, tijuca
Branco, vontade.
Amarelo, luz.
Azul, iemanjá.
Cor de pele, gente.

O rio é adúltero,
Corrompe-se,
Trai-se por gosto
E é eternamente pecado.

O rio é poesia,
E só o sei na canção.

O rio é sortudo,
Porque é maravilhoso por acaso.

21/10/2009


saudade dos dias que passamos no aconchego dos sentidos
pelos tempos em que me vinhas procurando sem cansar
e sorrias na escuridão dos meus desejos
sim, olha como quero ainda mais ver-me perdida

e serei sempre demais para ti
nem nunca será tão tarde
no corpo que é em tantas
mas da alma que vive numa infinita solidão

o calar em que me insisto
esperam os beijos roubados sedentos de ti
e quando me vejo, estou só entre ti e a vontade
entregue ao arrebatamento da acção

19/10/2009

Acho que é tudo, "e tanto", e tão eu, por agora:

"Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora."

Vinicius de Moraes

09/10/2009



Poso para ti em pensamento
Quero-me nas palavras

Nos teus braços já não peço

Mas na música que é muda para mim
E que continua a gritar baixinho ao ouvido


Em ti
Tua criação

Canção

Estou nua, numa


Quem vê?

Nada, ninguém
A solidão fez-me só

Aquele empurrão

Não não sou feliz

Mas "mais vale viver", talvez


Fecha os olhos

E vê

Como sou aquilo que fizeres ser

E alma disposta num jeito de te querer

17/09/2009


Furam-nos os tímpanos
Desenvolvimento, progresso, evolução?
Não!
Chega de positivismos!

Querem-nos médicos dos males do mundo.
Não!
Não há cura para a solidão.
Não, há caminho, há construção!

Subjectivem a análise, os conceitos, TUDO!
Chega!
Para que sirvo?
Alguma vez fomos por outro caminho se não em frente?

Não!
Revolução! (Industrial? Agrícola?)
Que se lixem as revoltas!
Cravos?
Não matem as florzinhas!

Sintam mais! Sintam tudo!
Percam-se nos jardins, nas ruas.
Beijem a quem queiram beijar.
MAIS!
Deixem-se entregar.

Vivam.
Isto é tudo unidireccional.
Deixemo-nos de maledicências.
Morte ao senso comum!

Camarada?
Não!
Amigo?
Talvez!

Não se agrupem por ideais!
Agrupem-se por sentimentos!

24/08/2009

Somos folhas breves onde dormem
Aves de silêncio e solidão.
Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
Até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
Cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio de Andrade

18/06/2009


Começo hoje a história de um sonho.
Não é cor-de-rosa, mas sim, azul, verde e amarelo.
É a história de uma viagem pelo oceano, por cima das nuvens até chagar ao Tom Jobim.
É sonho sim, de mil sabores, e de mil sons que balançam já no ouvido virgem dos ritmos por ouvir.
É o sonho da água de beber misturada em limas e açúcar.
É o sonho da vista panorâmica sobre a cidade maravilhosa e do banho de mar em Ipanema.
Ai quanto tempo sonhei e ainda sonho com este sonho...
É o sonho do churrasco, do pagode, ao forró, passando pelo sertanejo, pelo samba...
Ai samba que te quero lento e bem cantado tocado à pele morena, queimada pelo sol.
Sonho sonhado em outras praias, em outros voos, em outras andanças. Sonho dos pés mexidos no ritmo, dos lapsos de língua.
Outrora sonho de outros Verões.
Agora é sonho do meu.


17/06/2009

quero um dia ser mãe
gerar do corpo, da alma
quero um dia ser mãe de alguém
entregar amor, sem perguntar
quero um dia ser mãe, sim quero muito
ter a vida guardada entre os braços e o peito
quero um dia ser mãe como tu
ser bárbara, mãe e filha
quero reproduzir-te mãe
gostava de ser uma mãe como tu


vejo a tua dor nos olhos cansados do medo
não tenhas medo mãe, eu estou aqui
nunca te deixarei sozinha
queria-te imortal
amo-te

14/06/2009

09/06/2009

07/06/2009


mais melódica que harmónica
não sei ser várias frequências em simultâneo

latejo o som dos meu
s sentidos, um de cada vez
linear e coerente, poderei ser ponto de partida para improvisação

mas sou em versos e depois sempre sou refrão
apoio-me em ritmos para não perder critério
sou voz cantada, dita e sentida no timbre

por vezes silêncios
por vezes piano ou forte

umas vezes vida

mas uma só morte

05/06/2009

se serei


E se cantássemos tudo outra vez, as vergonhas dos primeiros encontros tímidos (e como estão esquecidos), e se contássemos todos os sussuros que dissemos ao ouvido, e nos deitássemos outra vez na cama outrora quente...?
E se, se voltássemos atrás no futuro, e o tic-tac ao fundo ficasse mudo? Para sempre.
E se começássemos de novo, novamente, ao que já fomos. Eu sei, se assim fosse não seríamos... Mas e se nos esquecessemos de tudo?
Se eu quisesse, mas não quero.
Tenho uma sede imensa de ser imensa e de ser eu.
Mas, e se nos perdessemos entre as mãos e entre os sorrisos só mais uma vez?
Não.

Vou reinventar-me sem ti.
Serei devaneio de mim, só meu.
Serei o branco e as cores a misturar.
Serei silêncio e os gritos para berrar.
Serei espaço e imensidão para o ocupar.
Serei liberdade e livre para sonhar.

Serei o que não fosse e o que não seria.
Serei o que, presa a ti, eu não queria.


Serei mais ser.

21/05/2009



Batendo forte,
Cobrindo as rochas que insistem em lá estar,
Vai o mar soltando gritos,
Esperando chegar.

Ânsia de incerteza

De tocar para recuar

Na areia húmida

Sedenta de mais mar


Salgando os pés,

Brinco na espuma
Risos falo, risos quero
E calando com o sol a pôr-se ao fundo
Invade-me laranja, azul, luz e mar.


Oh mar que me enches de criação.
Oh mar que me perdes com a noite.
Oh mar que me esqueces.

19/05/2009

deitada sobre as tuas pernas
teus dedos deslizam sobre os meus cabelos
limpo a minha alma com lágrimas
espero palavras de consolação

pesa-me o mundo
choro tristezas
ergo-me e pegando na tua mão
agradeço
ajuda-me mãe
não me deixes nesta solidão





(queria-te perto, quero-te longe, porque me deixaste escorregar entre as tuas mãos?)




28/04/2009


Desenho personagens nas nuvens

O vento que fez da nuvem uma árvore
Agora é pássaro e voou
Fugiu da minha imaginação.

Passarinho volta p'rá minha vida
Volta a pousar na minha mão
Volta a cantar-me o mundo ao ouvido
O mundo que viste na solidão.

06/04/2009

a perda só é definitiva quando há esquecimento.
quando te lembrares...


Muitas vezes pensamos em qual seria o pior sentimento que poderemos ter por alguém ou que alguém teve por nós. Há quem acredite que não existem bons ou maus sentimentos, simplesmente sentimos quer queiramos quer não, mesmo que achemos que somos muito racionais (já que somos o único animal que pensa, ou na minha opinião, que pensa que pensa) e que raramente tomamos decisões pelo chamado "lado emocional".

Engraçado que o sentimento que "escolhi" ou, num caso muito particular, que me magoou demasiado profundamente (daí a sua eleição), é fruto da razão, do pensamento, se não fossemos animais racionais, não teríamos essa particularidade, que ainda não sei se se deva chamar sentimento. Penso que o chamo sentimento pelos efeitos que produz. Talvez seja mais um automatismo da nossa mente, accionada sem a percepção de quem accionou. É um acto inconsciente.

Em conversa com as minhas amigas surgiram várias propostas.. Umas diziam que a pena é o pior sentimento do mundo, mas penso que a pena, apesar de ser "penoso" para quem é o objecto "penado", poderá despoletar bons actos, como a solidariedade ou a compaixão. A indiferença, também foi uma sugestão. Já outras diziam o desrespeito, neste ponto concordo parcialmente.. mas será o pior?
Infelizmente, certos acontecimentos recentes na minha vida mostraram-me uma nova perspectiva acerca do mal que se faz ao outro, dos sentimentos que geramos dentro de nós, dos sentimentos que os outros têm por nós.

Esquecer é o meu eleito. Não nos tornamos pequenos e tristes quando alguém se esquece de nós? Não somos invadidos por um sentimento de culpa quando nos esquecemos de alguém? Pois... mas o esquecimento pode surgir de várias formas. Por exemplo, quando esquecemos as chaves de casa, quando esquecemos de pôr sal no arroz, quando esquecemos de desligar o ferro de engomar ou quando esquecemos do bolo no forno e quando nos lembramos é tarde de mais, quando esquecemos que temos um trabalho para entregar no dia seguinte, quando esquecemos de levar guarda chuva e está um temporal enorme, quando esquecemos dos lenços e estamos com uma constipação infernal, quando nos esquecemos de tomar um comprimido que deve ser tomado religiosamente todos os dias, quando nos esquecemos de fechar o carro ou de puxar o travão de mão, quando nos esquecemos que os convidados não gostam de arroz de pato e eles acabaram de tocar à campainha...sei lá, podia ficar aqui a noite toda! Todas estas pequenas (grandes!) coisas que nos esquecemos provocam-nos um grande tumulto interno e perguntamo-nos "Que estúpida! como é que me esqueci??" ou "Como é que eu não me lembrei disso?"

Mas a vida também é feita de coisas mais profundas, de esquecimentos mais dolorosos tanto para quem esquece como para quem é esquecimo.. ora vejam:
E quando nos esquecemos do aniversário daquela amiga, que apesar de não estarmos juntas à algum tempo, está sempre presente e disponível ajudar nos piores momentos?
E quando nos esquecemos que alguém perdeu recentemente uma pessoa querida e lhe perguntamos com um enorme sorriso como está essa pessoa?
E quando nos partilhamos uma vida com uma pessoa, e num dia, ela se esquece de nós, e movido apenas por instintos (daí eu ter dito que o ser humano muitas vezes apenas pensa que pensa) quebra uma promessa?

Pois é!
Na minha opinião o grande problema do esquecimento é a quantidade de sensações que gera. Gera dor, culpa, mágoa, indiferença, desrespeito, solidão, revolta, angústia, etc.
Quem nunca se esqueceu que atire a primeira pedra, mas como disse há quem se esqueça das chaves, e há quem se esqueça da pessoa a quem disse pela primeira vez 'amo-te'.

Com isto, termino com duas das minhas grandes paixões - a música brasileira e a literatura.

Lembrar é fácil pra quem tem memória, esquecer é dificil pra quem tem coração!
William Shakespeare




10/03/2009



Ontem, no breu da noite e no silêncio inventado da praia... olhei para o céu. E nas estrelas, desenhando constelações, senti o calor da única coisa física que agora temos em comum...o mesmo céu.

Agosto de 2007