27/10/2010

Enches as mãos do rosto que é meu,
Dos olhos dormentes cais para algum lugar.
Mais longe que depois dos espaços,
Mais quente que o pousar dos passos,
Inventas-me um nome.
E bebemos um amor sem esforço nem glória,
Ou dois, quando não nos bastamos.
Tristes mas inteiros,
Sinceros.

10/10/2010

Nobres caminhos que revolvo sempre que chego cansada aos braços de quem já não mais me quer. Calando-se os sentidos, para o chão atiro sonhos suculentos e futuros certos. Ai quem dera um dia o desejo volte a mim, saudoso e carente. Um qualquer dia bem bailável, a dois, como pede o amor. Quero por momentos nem acreditar, acreditando porém. Quero uma mão para agarrar e um beijo sorrindo. Não espero, só quero e quero muito e tanto. E para mim basta este querer sossegado.

15/09/2010

Eu gosto mais dos dias sós e quietos, como domingos semanais que se esperam, entranham e embalam. Dias fáceis, sem pensamentos nem feitos triunfais. Mais uma vez serenos, reflexos de mim, como me deixas. Sentada no sofá, escutando a aflição dos outros que correm, deixas-me à ternura. Um dia hão-de subir pelas minhas pernas joaninhas. E tu, de longe, acenarás alegre por me veres entregue aos dias que contigo não tive.

30/08/2010

Remenda os dedos dos gestos do passado e a boca do que não querias dizer. 
Mostra-me um pouco mais de mim que de ti se oprime e consola e suspira.
Agarra-me o ventre como se dele nascesses e repousa quieto, expulsando-te lento.
Esquece que existes e existe em mim, só agora.
E revela-te fugaz no momento e eterno no tempo.
Serena as dúvidas, acaricia-as como se delas gostasses. 
Deixa-te livre, que o amor urge e precisa de nós, inteiros, escravos, canibais.

26/07/2010

São agora 6h45 da manhã e estou na Rodoviária do Rio de Janeiro. Sento-me, luto com a cadeira que não me deixa confortável por um minuto. Passo o tempo até as 8h entre as páginas da "Sociologia" e deliciando-me com a MPB.fm, que toca agora "Falando de Amor" do meu querido Tom Jobim. Sempre que viajo, apuro os meus sentidos. No Brasil, mesmo sem querer estou sempre de ouvidos bem abertos e observo com mais cuidado. Encontro afinidades e desconfortos diariamente. O Rio de Janeiro mostra-se tão controverso. É sorridente, fadado à alegria, mesmo quando não é alegre, dançado com os pés por entre qualquer samba, sentido pelas poesias de todas as Bossas, misturado pelas essências, pela distância, pelas cores, que afastam e aproximam as pessoas, todos os dias. O Rio é uma cidade de histórias de vida, de recortes de quotidiano, de fotografias, de momentos tão fiéis, mas tão traidores da sua realidade. Deixo aqui uma lembrança, até para mim mesma, de pessoas que me marcaram, que me deixaram sensível de alguma forma. Pessoas que não sei o nome e o rosto ficou agarrado ao passado, precisamente a este dia, 24 de Julho, na espera de um autocarro para Búzios. Mas também a todos os dias.
  • O motorista de um taxi que canta e toca cavaquinho numa roda de samba.
  • O "senhor bem vestido" que mal dizia Portugal a uns estrangeiros.
  • O miúdo que me roubou a Coca-Cola. E o outro que chora sentado no passeio, agarrado as pernas, com três bolinhas no chão, à espera que o semáforo fique vermelho.
  • O velho sorridente e simpático que me pede para fechar o fecho da mala porque só tem uma mão.
  • O segurança que me responde "arriba" e não "em cima".
  • O rapaz do quiosque que vê numa calculadora qual é o troco para 25R$ de uma nota de 50R$.
  • A Leila que me recebe todos os dias com o enorme sorriso e diz: "Oi meu amor!"

A todas estas pessoas, que não conheço, digo o que aqui se diz e que, mesmo sem qualquer sentido religioso, deixa que pelo menos os 5 minutos seguintes sejam passados com um pouco mais de coragem: "Deus vos abençoe!".

13/06/2010

11/06/2010


Preciso de ti, solidão, só hoje, para expressar o outro.
E exponho-me, devagar e alegre.
Do tempo vivido recrio a forma e a cor.
Eternizo a lembrança e escondo, brincamos o branco.

Preciso de ti, cada vez mais, para desviar o mostro perigo.
O riso como espasmo de loucura: Vai, demora a não voltar!
E triste adormeço, nunca mais distante.
Não me olhes o rosto lavado de ti.

Preciso só mais de mim, florescendo aos poucos.
Hoje serei botão de qualquer flor.
E as palavras serão para sempre doces, por isso não me exijas o adeus.
Nem me colhas o canto primaveril.

Deixa-me precisando, que é do afecto que te deixo que um dia desabrocharei.

07/06/2010

Os sonhos da morte encerram o sentido só de um homem sentado na beira do banco de onde se vê a praia. O pachorrento bater do pé no chão denúncia a espera por alguém que não mais irá voltar. Estou perto, espreito e tento por momentos pensar este homem. E ele vive nele, não sabe que outros podem viver na sombra dos seus pensamentos. Será homem grande? Saibamo-lo só, inquieto mas paciente, no conforto da pedra aquecida pelo tempo, entre a paisagem finita dos seus olhos e de um passado tão ardente no sangue mas com uma certa descrença no amanhã. Ele pousa uma mão sobre a outra, talvez sinta saudade de quem sentava do lado dele e esperava todos os momentos com a mesma tranquilidade, segurando na sua mão, em carinho e amizade. Ele já não terá mais medo de estar só nem será mais vulnerável aos outros, ao que passa e não volta, ao que passa, pára e fica, para sempre, naqueles minutos ou em todos os outros, muitas vezes. Aprender a solidão é uma arte digna de poucos. Por isso, olho-o com um certo pudor.

02/06/2010

A beleza não fez do poeta cantor.
Outra vez.

22/05/2010

- Sabes que eu gosto de te perguntar sobre as coisas.
- Porquê?
- Porque tu respondes sempre aquilo que eu preciso ouvir.

21/05/2010


Se um dia andássemos por aqui todos bêbados, acabava a hipocrisia.

19/05/2010

Amanhã seremos todos mais modernos do que somos hoje. E isso assusta-me porque estou quase desactualizada. Aliás, já é amanhã e por isso não quero dormir.
E tu vês o que eu vejo da janela?
Vejo milhões de mundos e o meu como mais um, o teu como o outro, o deles como nada.
Nada vejo na descarga de emoções.
Não as que sinto em mim, que são por vezes mentira.
Nada assimilo, como se conhecer ocupasse o espaço que é teu.
Porque escrevo sobre quem não existe?
Tu podias ser o vendedor do quiosque que fala esquisito, se ele vivesse num corpo velho.
Ou então, a senhora simpática, que sabe o meu nome, mas eu não sei o dela, por isso não podias ser tu.
Serás o miúdo que anda na calçada sem pisar o preto e que salta de lista branca em lista branca na passadeira?
Aqui tu serias você e isso teria muita piada! Adoraria, por momentos, ter-te como desconhecido, que és sem querer.
Invento um novo tu todos os dias, o que me convém. É um egoísmo e uma vontade de ter sempre alguém a quem escrever. Penso sempre num tu e num eu, que nem na verdade nem na mentira existe.
O Sérgio diria que a "realidade é o funeral das ilusões". Eu penso o contrário e vivo feliz porque nestes 15 minutos de escrita descontrolada, a realidade é a mãe da ilusão, é a possibilidade infinda de cenários que eu crio, só porque me apetece.
Isso é bom.
Porque nunca te dei um nome? Seria fácil ter mais soluções para os sujeitos e complementos. Torno-me repetitiva por seres sempre "tu".
E tu, se é que existes, percebes as minhas metáforas? É, eu exagero, mas sabes que nunca gostei de chamar as coisas pelos nomes, por isso é que continuas a ser só tu.
Não espero que tu venhas realmente a existir, porque se um dia existisses eu deixava de escrever sobre ti, deixarias de ser o que eu quisesse.
Tornei esta idiossincrasia menos inconsciente, era inevitável.
As pessoas perguntam: "Quem é esta pessoa especial?"... Não que não sejas especial, que és e muito, mas não precisas de ser ninguém em especial.
E lá porque eu te invento constantemente nunca te quis à minha medida.
És os meus medos, os meus mundos e os dos outros, as minhas paixões vegetais e as de lume brando, os sonhos.
Penso sempre que da próxima vez que me dirigir a ti, vais deixar de existir nas palavras, vou contar a tua morte ao mundo e esperar as lágrimas e os aplausos do meu pequeno e também concebido público.
Mas sabes que nunca te mataria pelas costas, nem por vingança de me teres mantido tanto tempo presa a ti. Mataria-te de velhice, como se escorregasses pelas rugas do tempo que viveste preso à minha demanda e criatividade. Seria uma morte bonita, nunca a dormir, tu dormes pouco e eu nunca te vejo a acordar, por isso não conseguiria estar presente no momento do eterno sono.
Porque te mataria? Seria só por luxúria. Porque sim. E nunca vai ser um bom dia para morreres.
Criei-te tão eterno quanto eu.
Isso até tem um lado romântico, vamos morrer como nos filmes.

14/05/2010

Eramos dois.
No chão do mundo contavamos histórias de depois.
A cidade à velocidade da sombra.
E do leito do incomunicável eramos mais que nós.
De todas as maneiras.


10/05/2010


Aprendi a acordar num dia sempre diferente ao dia anterior. Aqui o mundo balança ente a bucólica sensação da verdadeira saudade, a espontaneidade tão fugaz e escorregadia como as músicas desta cidade e os calares constantes e emaranhados da minha poesia. Aproxima-se o fim de mais uma noite. E o amanhã avizinha-se cheio mas tão vazio de soluções. Não há silêncio aqui e eu vivo sem pertencer a nenhum lugar, sou das minhas pessoas e das quatro estações.

08/05/2010

Padeço minguante.

24/04/2010


Sento-me sob o embalo da escolha.
Um beijo no dado atirado no vazio.
Daquele lado a apego.
Do outro o coração.
Circulam as noites em cima dos dias e os minutos são duros, mais que as horas.
Sou as esperas inúteis da notícia.
O pecado foi pecar logo e tanto. Isso sim.

E olho o muro cá de baixo.
Decido sentar-me e olhar a paisagem.
Escolhi vislumbrar, apenas.
Daquele lado o prado, a criança, a verdade.
Do outro a mensagem triste de que mais vale saltar. E logo.
Sou os olhos fechados de um passo.

Serei só atenta e sozinha de ti.
Lambo o dedo e num suspiro deixo-me cair para o lado que o vento me levar.



04/04/2010

Sou a canção perdida num grito,
Que morde a tua língua numa inglória saudade.
E escuto-te atenta como se falasses essas palavras todas para mim.
Fugi demais e encontrei-me atrasada das horas mortas.
A minha miséria vem da pequenez dos meus gestos
E de um amor por descrever.
Por querer.
Por te querer.
E enquanto apanhas aquele comboio para algures,
Esquece que fiquei acenando,
Esquece da lágrima que chorei quando me brindaste com o teu desprezo.
Até logo homem inquieto.

27/03/2010

É o mote da perdição
Que nos deixa e nos prende
Um coração sozinho
Um corpo vandalizado
Um ser abandonado
O sorriso na ambição

É o mote da criação
Que nos faz tão bem-aventurados
Um copo partido
Um cigarro fumado
Uma tela molhada
O sorriso na vontade.

É o mote do medo
Que nos quer tão longe e tão perto
Uma cidade vizinha
Um beijo não dado
Uma corda no pescoço
O sorriso na calada.

É o mote da saudade
Que não quer que a matem
Uma contagem decrescente
Um abraço que não se deu
Um país enterrado
O sorriso na ansiedade.

É o mote da ilusão
Que nos deixou além de nós
Uma história contada
Um olhar de criança
Um copo vazio
O sorriso na verdade.




15/02/2010


Continuo assim, calada, porque o nosso silêncio também é bom.
Amanhã o olhar dirá tudo que alguma vez ficou por dizer.
Porque o mundo está muito além dos passos que damos em voos rasteiros.
E eu já não pertenço à verdade, sou das ideias.
Quando quiser ficar, terei de ir e isso chega.
Não haverão horas certas nem será conveniente amar.
As palavras não chegarão para dizermos adeus, imagina os gestos.
Por isso, fico assim calada, à espreita de um ruído do qual escolho fugir.
E tu sabes como eu nunca pertenci aqui.

01/02/2010

Há dias destes, em que acordo na possibilidade e adormeço na certeza.
E é bom sentir que Deus ou a sorte ou até o mérito, me sorriu, com um sorriso daqueles beeeem grandes.
Saber que, apesar de tudo, isto estava reservado para mim e que, vá lá. eu até merecia.
E salto, choro, grito, tudo!
Pois é, há dias incríveis.
Eu só tive um dia assim até hoje.
Um dia que se vai transformar em 5 meses.

ATÉ LOGO PORTUGAL, VOU VIVER À GRANDE E À BRASILEIRA!



20/01/2010


Tudo o que marca demora.
Demora até sermos velhos nos braços um do outro.
Os lençóis atirados aos pés da cama e uma manhã por vir.
Tomara.

Tudo o que demora marca.
Não vai embora com o fim da tarde das primaveras.
Fica a ferver-se no salgado do que nasceu para além do vidro baço.

Tudo o que sinto marca e demora.
E as mãos já só pousam uma na outra à procura da ternura e de um pouco de juventude.
Pelo menos.

E usamo-nos do tempo como se não fosse mais parar.
Estivemos além da espera.
Além da verdade.
Porque tu nunca mereceste amar.
As estrelas.

Perdeste os sentidos das imensas cantigas pelo eco das cordilheiras que víamos da janela.
Passavas a mão pelas bochechas perdidas no sorriso que sorria para ti.
E tudo era "pronto...que seja".

Doiê, doiá, tzeió, doiá, derodoiê, doiá.

Ou o corpo ou a alma.
A alma está ausente.
Toma lá o corpo.

04/01/2010

quebra a infinita gentileza das rosas e atira-mas contra o rosto

despreza a essência dos corpos que outrora se acalentaram na energia

acaba com a dúvida do que não aprendeste a saber

a pureza das horas pálidas acabou

a honra vive trilhada em paixão

as mãos com que acenas não são as minhas

a voz numa chanson d'amour calou

que delícia é comer a saudade aos poucos

mas toda de uma vez

à flor dos dedos entrego-te aos dias




infinitamente incoerente



02/01/2010

Invadiu-me o sono,
E demorou-se até fazer-se em luz na escuridão.
Foi um abraço, apenas,
Que da água me salvei para viver.

Foste abraço, tanto.
E eu o beijo no teu ombro quente.

O berro do lado de fora.
A dor aguda do lado de dentro.
O sonho do lado do sono.
E tu do lado do medo.

E nos lábios salgados,
Guardei-te um segredo.

Pede-me de volta ao tempo,
Que as palavras são doces.

E aí, fez-se Verão, finalmente.