20/01/2010


Tudo o que marca demora.
Demora até sermos velhos nos braços um do outro.
Os lençóis atirados aos pés da cama e uma manhã por vir.
Tomara.

Tudo o que demora marca.
Não vai embora com o fim da tarde das primaveras.
Fica a ferver-se no salgado do que nasceu para além do vidro baço.

Tudo o que sinto marca e demora.
E as mãos já só pousam uma na outra à procura da ternura e de um pouco de juventude.
Pelo menos.

E usamo-nos do tempo como se não fosse mais parar.
Estivemos além da espera.
Além da verdade.
Porque tu nunca mereceste amar.
As estrelas.

Perdeste os sentidos das imensas cantigas pelo eco das cordilheiras que víamos da janela.
Passavas a mão pelas bochechas perdidas no sorriso que sorria para ti.
E tudo era "pronto...que seja".

Doiê, doiá, tzeió, doiá, derodoiê, doiá.

Ou o corpo ou a alma.
A alma está ausente.
Toma lá o corpo.

04/01/2010

quebra a infinita gentileza das rosas e atira-mas contra o rosto

despreza a essência dos corpos que outrora se acalentaram na energia

acaba com a dúvida do que não aprendeste a saber

a pureza das horas pálidas acabou

a honra vive trilhada em paixão

as mãos com que acenas não são as minhas

a voz numa chanson d'amour calou

que delícia é comer a saudade aos poucos

mas toda de uma vez

à flor dos dedos entrego-te aos dias




infinitamente incoerente



02/01/2010

Invadiu-me o sono,
E demorou-se até fazer-se em luz na escuridão.
Foi um abraço, apenas,
Que da água me salvei para viver.

Foste abraço, tanto.
E eu o beijo no teu ombro quente.

O berro do lado de fora.
A dor aguda do lado de dentro.
O sonho do lado do sono.
E tu do lado do medo.

E nos lábios salgados,
Guardei-te um segredo.

Pede-me de volta ao tempo,
Que as palavras são doces.

E aí, fez-se Verão, finalmente.