19/10/2009

Acho que é tudo, "e tanto", e tão eu, por agora:

"Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora."

Vinicius de Moraes

09/10/2009



Poso para ti em pensamento
Quero-me nas palavras

Nos teus braços já não peço

Mas na música que é muda para mim
E que continua a gritar baixinho ao ouvido


Em ti
Tua criação

Canção

Estou nua, numa


Quem vê?

Nada, ninguém
A solidão fez-me só

Aquele empurrão

Não não sou feliz

Mas "mais vale viver", talvez


Fecha os olhos

E vê

Como sou aquilo que fizeres ser

E alma disposta num jeito de te querer

17/09/2009


Furam-nos os tímpanos
Desenvolvimento, progresso, evolução?
Não!
Chega de positivismos!

Querem-nos médicos dos males do mundo.
Não!
Não há cura para a solidão.
Não, há caminho, há construção!

Subjectivem a análise, os conceitos, TUDO!
Chega!
Para que sirvo?
Alguma vez fomos por outro caminho se não em frente?

Não!
Revolução! (Industrial? Agrícola?)
Que se lixem as revoltas!
Cravos?
Não matem as florzinhas!

Sintam mais! Sintam tudo!
Percam-se nos jardins, nas ruas.
Beijem a quem queiram beijar.
MAIS!
Deixem-se entregar.

Vivam.
Isto é tudo unidireccional.
Deixemo-nos de maledicências.
Morte ao senso comum!

Camarada?
Não!
Amigo?
Talvez!

Não se agrupem por ideais!
Agrupem-se por sentimentos!

24/08/2009

Somos folhas breves onde dormem
Aves de silêncio e solidão.
Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
Até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
Cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio de Andrade

18/06/2009


Começo hoje a história de um sonho.
Não é cor-de-rosa, mas sim, azul, verde e amarelo.
É a história de uma viagem pelo oceano, por cima das nuvens até chagar ao Tom Jobim.
É sonho sim, de mil sabores, e de mil sons que balançam já no ouvido virgem dos ritmos por ouvir.
É o sonho da água de beber misturada em limas e açúcar.
É o sonho da vista panorâmica sobre a cidade maravilhosa e do banho de mar em Ipanema.
Ai quanto tempo sonhei e ainda sonho com este sonho...
É o sonho do churrasco, do pagode, ao forró, passando pelo sertanejo, pelo samba...
Ai samba que te quero lento e bem cantado tocado à pele morena, queimada pelo sol.
Sonho sonhado em outras praias, em outros voos, em outras andanças. Sonho dos pés mexidos no ritmo, dos lapsos de língua.
Outrora sonho de outros Verões.
Agora é sonho do meu.


17/06/2009

quero um dia ser mãe
gerar do corpo, da alma
quero um dia ser mãe de alguém
entregar amor, sem perguntar
quero um dia ser mãe, sim quero muito
ter a vida guardada entre os braços e o peito
quero um dia ser mãe como tu
ser bárbara, mãe e filha
quero reproduzir-te mãe
gostava de ser uma mãe como tu


vejo a tua dor nos olhos cansados do medo
não tenhas medo mãe, eu estou aqui
nunca te deixarei sozinha
queria-te imortal
amo-te

14/06/2009

09/06/2009

07/06/2009


mais melódica que harmónica
não sei ser várias frequências em simultâneo

latejo o som dos meu
s sentidos, um de cada vez
linear e coerente, poderei ser ponto de partida para improvisação

mas sou em versos e depois sempre sou refrão
apoio-me em ritmos para não perder critério
sou voz cantada, dita e sentida no timbre

por vezes silêncios
por vezes piano ou forte

umas vezes vida

mas uma só morte

05/06/2009

se serei


E se cantássemos tudo outra vez, as vergonhas dos primeiros encontros tímidos (e como estão esquecidos), e se contássemos todos os sussuros que dissemos ao ouvido, e nos deitássemos outra vez na cama outrora quente...?
E se, se voltássemos atrás no futuro, e o tic-tac ao fundo ficasse mudo? Para sempre.
E se começássemos de novo, novamente, ao que já fomos. Eu sei, se assim fosse não seríamos... Mas e se nos esquecessemos de tudo?
Se eu quisesse, mas não quero.
Tenho uma sede imensa de ser imensa e de ser eu.
Mas, e se nos perdessemos entre as mãos e entre os sorrisos só mais uma vez?
Não.

Vou reinventar-me sem ti.
Serei devaneio de mim, só meu.
Serei o branco e as cores a misturar.
Serei silêncio e os gritos para berrar.
Serei espaço e imensidão para o ocupar.
Serei liberdade e livre para sonhar.

Serei o que não fosse e o que não seria.
Serei o que, presa a ti, eu não queria.


Serei mais ser.