22/10/2009


Lá e sempre,
O rio vai dar ao mar
E todo ele é maré, gente e canção.

O rio é de Janeiro, do ano inteiro
Dos dias e das demais medidas do tempo
Só não cabe nas palavras.

Saravá ao povo que se deixa posar, sem querer
Às grandes criações do poeta.

Saravá ao poeta.


O rio é mulher formosa
E a mão que enxuga a lágrima no rosto,
Mas é o sorriso que sai pelas ruas.

O rio só é homem quando se observa orgulhoso.

O rio é sempre foz,
Prestes a desaguar
A explodir, quem sabe.

E deixo os olhos pousar
E o corpo mergulhar nesse rio
Como se fosse para sempre o último abraçar.

O rio bebe-se aos poucos,
Gota a gota, pinga a pinga,
Mas bate rápido
É 100% alcoólico.

O rio é criança
Quando dança de pés descalços
Mas chora,
Órfão de pai.

Esse rio cheira a suor
A beijos misturados
Corpos incendiados
De alegria e desespero.

De ironia.

Os peixes desse rio não são peixes,
São polvos
Que nos agarram eternamente
E tingem os desejos de uma só cor.

O rio é longe,
E ficamos a vê-lo do pontão das objectivas.
Nunca é inteiro,
É afluente de si próprio.

O rio é cinza, poluído.
Verde, tijuca
Branco, vontade.
Amarelo, luz.
Azul, iemanjá.
Cor de pele, gente.

O rio é adúltero,
Corrompe-se,
Trai-se por gosto
E é eternamente pecado.

O rio é poesia,
E só o sei na canção.

O rio é sortudo,
Porque é maravilhoso por acaso.

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