26/07/2010

São agora 6h45 da manhã e estou na Rodoviária do Rio de Janeiro. Sento-me, luto com a cadeira que não me deixa confortável por um minuto. Passo o tempo até as 8h entre as páginas da "Sociologia" e deliciando-me com a MPB.fm, que toca agora "Falando de Amor" do meu querido Tom Jobim. Sempre que viajo, apuro os meus sentidos. No Brasil, mesmo sem querer estou sempre de ouvidos bem abertos e observo com mais cuidado. Encontro afinidades e desconfortos diariamente. O Rio de Janeiro mostra-se tão controverso. É sorridente, fadado à alegria, mesmo quando não é alegre, dançado com os pés por entre qualquer samba, sentido pelas poesias de todas as Bossas, misturado pelas essências, pela distância, pelas cores, que afastam e aproximam as pessoas, todos os dias. O Rio é uma cidade de histórias de vida, de recortes de quotidiano, de fotografias, de momentos tão fiéis, mas tão traidores da sua realidade. Deixo aqui uma lembrança, até para mim mesma, de pessoas que me marcaram, que me deixaram sensível de alguma forma. Pessoas que não sei o nome e o rosto ficou agarrado ao passado, precisamente a este dia, 24 de Julho, na espera de um autocarro para Búzios. Mas também a todos os dias.
  • O motorista de um taxi que canta e toca cavaquinho numa roda de samba.
  • O "senhor bem vestido" que mal dizia Portugal a uns estrangeiros.
  • O miúdo que me roubou a Coca-Cola. E o outro que chora sentado no passeio, agarrado as pernas, com três bolinhas no chão, à espera que o semáforo fique vermelho.
  • O velho sorridente e simpático que me pede para fechar o fecho da mala porque só tem uma mão.
  • O segurança que me responde "arriba" e não "em cima".
  • O rapaz do quiosque que vê numa calculadora qual é o troco para 25R$ de uma nota de 50R$.
  • A Leila que me recebe todos os dias com o enorme sorriso e diz: "Oi meu amor!"

A todas estas pessoas, que não conheço, digo o que aqui se diz e que, mesmo sem qualquer sentido religioso, deixa que pelo menos os 5 minutos seguintes sejam passados com um pouco mais de coragem: "Deus vos abençoe!".

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