11/06/2010


Preciso de ti, solidão, só hoje, para expressar o outro.
E exponho-me, devagar e alegre.
Do tempo vivido recrio a forma e a cor.
Eternizo a lembrança e escondo, brincamos o branco.

Preciso de ti, cada vez mais, para desviar o mostro perigo.
O riso como espasmo de loucura: Vai, demora a não voltar!
E triste adormeço, nunca mais distante.
Não me olhes o rosto lavado de ti.

Preciso só mais de mim, florescendo aos poucos.
Hoje serei botão de qualquer flor.
E as palavras serão para sempre doces, por isso não me exijas o adeus.
Nem me colhas o canto primaveril.

Deixa-me precisando, que é do afecto que te deixo que um dia desabrocharei.

07/06/2010

Os sonhos da morte encerram o sentido só de um homem sentado na beira do banco de onde se vê a praia. O pachorrento bater do pé no chão denúncia a espera por alguém que não mais irá voltar. Estou perto, espreito e tento por momentos pensar este homem. E ele vive nele, não sabe que outros podem viver na sombra dos seus pensamentos. Será homem grande? Saibamo-lo só, inquieto mas paciente, no conforto da pedra aquecida pelo tempo, entre a paisagem finita dos seus olhos e de um passado tão ardente no sangue mas com uma certa descrença no amanhã. Ele pousa uma mão sobre a outra, talvez sinta saudade de quem sentava do lado dele e esperava todos os momentos com a mesma tranquilidade, segurando na sua mão, em carinho e amizade. Ele já não terá mais medo de estar só nem será mais vulnerável aos outros, ao que passa e não volta, ao que passa, pára e fica, para sempre, naqueles minutos ou em todos os outros, muitas vezes. Aprender a solidão é uma arte digna de poucos. Por isso, olho-o com um certo pudor.

02/06/2010

A beleza não fez do poeta cantor.
Outra vez.

22/05/2010

- Sabes que eu gosto de te perguntar sobre as coisas.
- Porquê?
- Porque tu respondes sempre aquilo que eu preciso ouvir.

21/05/2010


Se um dia andássemos por aqui todos bêbados, acabava a hipocrisia.

19/05/2010

Amanhã seremos todos mais modernos do que somos hoje. E isso assusta-me porque estou quase desactualizada. Aliás, já é amanhã e por isso não quero dormir.
E tu vês o que eu vejo da janela?
Vejo milhões de mundos e o meu como mais um, o teu como o outro, o deles como nada.
Nada vejo na descarga de emoções.
Não as que sinto em mim, que são por vezes mentira.
Nada assimilo, como se conhecer ocupasse o espaço que é teu.
Porque escrevo sobre quem não existe?
Tu podias ser o vendedor do quiosque que fala esquisito, se ele vivesse num corpo velho.
Ou então, a senhora simpática, que sabe o meu nome, mas eu não sei o dela, por isso não podias ser tu.
Serás o miúdo que anda na calçada sem pisar o preto e que salta de lista branca em lista branca na passadeira?
Aqui tu serias você e isso teria muita piada! Adoraria, por momentos, ter-te como desconhecido, que és sem querer.
Invento um novo tu todos os dias, o que me convém. É um egoísmo e uma vontade de ter sempre alguém a quem escrever. Penso sempre num tu e num eu, que nem na verdade nem na mentira existe.
O Sérgio diria que a "realidade é o funeral das ilusões". Eu penso o contrário e vivo feliz porque nestes 15 minutos de escrita descontrolada, a realidade é a mãe da ilusão, é a possibilidade infinda de cenários que eu crio, só porque me apetece.
Isso é bom.
Porque nunca te dei um nome? Seria fácil ter mais soluções para os sujeitos e complementos. Torno-me repetitiva por seres sempre "tu".
E tu, se é que existes, percebes as minhas metáforas? É, eu exagero, mas sabes que nunca gostei de chamar as coisas pelos nomes, por isso é que continuas a ser só tu.
Não espero que tu venhas realmente a existir, porque se um dia existisses eu deixava de escrever sobre ti, deixarias de ser o que eu quisesse.
Tornei esta idiossincrasia menos inconsciente, era inevitável.
As pessoas perguntam: "Quem é esta pessoa especial?"... Não que não sejas especial, que és e muito, mas não precisas de ser ninguém em especial.
E lá porque eu te invento constantemente nunca te quis à minha medida.
És os meus medos, os meus mundos e os dos outros, as minhas paixões vegetais e as de lume brando, os sonhos.
Penso sempre que da próxima vez que me dirigir a ti, vais deixar de existir nas palavras, vou contar a tua morte ao mundo e esperar as lágrimas e os aplausos do meu pequeno e também concebido público.
Mas sabes que nunca te mataria pelas costas, nem por vingança de me teres mantido tanto tempo presa a ti. Mataria-te de velhice, como se escorregasses pelas rugas do tempo que viveste preso à minha demanda e criatividade. Seria uma morte bonita, nunca a dormir, tu dormes pouco e eu nunca te vejo a acordar, por isso não conseguiria estar presente no momento do eterno sono.
Porque te mataria? Seria só por luxúria. Porque sim. E nunca vai ser um bom dia para morreres.
Criei-te tão eterno quanto eu.
Isso até tem um lado romântico, vamos morrer como nos filmes.

14/05/2010

Eramos dois.
No chão do mundo contavamos histórias de depois.
A cidade à velocidade da sombra.
E do leito do incomunicável eramos mais que nós.
De todas as maneiras.


10/05/2010


Aprendi a acordar num dia sempre diferente ao dia anterior. Aqui o mundo balança ente a bucólica sensação da verdadeira saudade, a espontaneidade tão fugaz e escorregadia como as músicas desta cidade e os calares constantes e emaranhados da minha poesia. Aproxima-se o fim de mais uma noite. E o amanhã avizinha-se cheio mas tão vazio de soluções. Não há silêncio aqui e eu vivo sem pertencer a nenhum lugar, sou das minhas pessoas e das quatro estações.

08/05/2010

Padeço minguante.