04/01/2010

quebra a infinita gentileza das rosas e atira-mas contra o rosto

despreza a essência dos corpos que outrora se acalentaram na energia

acaba com a dúvida do que não aprendeste a saber

a pureza das horas pálidas acabou

a honra vive trilhada em paixão

as mãos com que acenas não são as minhas

a voz numa chanson d'amour calou

que delícia é comer a saudade aos poucos

mas toda de uma vez

à flor dos dedos entrego-te aos dias




infinitamente incoerente



02/01/2010

Invadiu-me o sono,
E demorou-se até fazer-se em luz na escuridão.
Foi um abraço, apenas,
Que da água me salvei para viver.

Foste abraço, tanto.
E eu o beijo no teu ombro quente.

O berro do lado de fora.
A dor aguda do lado de dentro.
O sonho do lado do sono.
E tu do lado do medo.

E nos lábios salgados,
Guardei-te um segredo.

Pede-me de volta ao tempo,
Que as palavras são doces.

E aí, fez-se Verão, finalmente.

23/11/2009


é sobre mim mas para ti que escrevo
pela confusão das palavras não ditas
do que movo e espanto
é sobre mim mas para ti que escrevo

é sobre ti mas para mim que canto
e choro na ideia de um dia não poder mais pranto
o corpo, ser
sim é para ti meu canto

é sobre mim e para mim imagem
que já nada vê no reflexo
do pouco que fui pensando
do muito que pensei fazendo
ser só isto, apenas

é sobre ti e para ti que finjo
a mentira que é, tudo, a verdade
do brilho encanto
dos passos que fui dando
é para ti que falo

é sobre tudo que rasgo
a poesia que outrora percebi
as mãos, tanta tinta, os dedos
levemente crio o novo
é sobre ele que invento o sonho

é sobre o sinto que não quero
e é sobre o pedaço que vou tendo
é sobre o sobre que vivendo passo
e é sobre o foi, que não sei ser
mas é sobre quem nunca vou ter

e é por ninguém que comigo danço

10/11/2009

25/10/2009

o meu amor perdeu a vida.
foi a vida que perdeu o meu amor.

22/10/2009


Lá e sempre,
O rio vai dar ao mar
E todo ele é maré, gente e canção.

O rio é de Janeiro, do ano inteiro
Dos dias e das demais medidas do tempo
Só não cabe nas palavras.

Saravá ao povo que se deixa posar, sem querer
Às grandes criações do poeta.

Saravá ao poeta.


O rio é mulher formosa
E a mão que enxuga a lágrima no rosto,
Mas é o sorriso que sai pelas ruas.

O rio só é homem quando se observa orgulhoso.

O rio é sempre foz,
Prestes a desaguar
A explodir, quem sabe.

E deixo os olhos pousar
E o corpo mergulhar nesse rio
Como se fosse para sempre o último abraçar.

O rio bebe-se aos poucos,
Gota a gota, pinga a pinga,
Mas bate rápido
É 100% alcoólico.

O rio é criança
Quando dança de pés descalços
Mas chora,
Órfão de pai.

Esse rio cheira a suor
A beijos misturados
Corpos incendiados
De alegria e desespero.

De ironia.

Os peixes desse rio não são peixes,
São polvos
Que nos agarram eternamente
E tingem os desejos de uma só cor.

O rio é longe,
E ficamos a vê-lo do pontão das objectivas.
Nunca é inteiro,
É afluente de si próprio.

O rio é cinza, poluído.
Verde, tijuca
Branco, vontade.
Amarelo, luz.
Azul, iemanjá.
Cor de pele, gente.

O rio é adúltero,
Corrompe-se,
Trai-se por gosto
E é eternamente pecado.

O rio é poesia,
E só o sei na canção.

O rio é sortudo,
Porque é maravilhoso por acaso.

21/10/2009


saudade dos dias que passamos no aconchego dos sentidos
pelos tempos em que me vinhas procurando sem cansar
e sorrias na escuridão dos meus desejos
sim, olha como quero ainda mais ver-me perdida

e serei sempre demais para ti
nem nunca será tão tarde
no corpo que é em tantas
mas da alma que vive numa infinita solidão

o calar em que me insisto
esperam os beijos roubados sedentos de ti
e quando me vejo, estou só entre ti e a vontade
entregue ao arrebatamento da acção

19/10/2009

Acho que é tudo, "e tanto", e tão eu, por agora:

"Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora."

Vinicius de Moraes

09/10/2009



Poso para ti em pensamento
Quero-me nas palavras

Nos teus braços já não peço

Mas na música que é muda para mim
E que continua a gritar baixinho ao ouvido


Em ti
Tua criação

Canção

Estou nua, numa


Quem vê?

Nada, ninguém
A solidão fez-me só

Aquele empurrão

Não não sou feliz

Mas "mais vale viver", talvez


Fecha os olhos

E vê

Como sou aquilo que fizeres ser

E alma disposta num jeito de te querer

17/09/2009


Furam-nos os tímpanos
Desenvolvimento, progresso, evolução?
Não!
Chega de positivismos!

Querem-nos médicos dos males do mundo.
Não!
Não há cura para a solidão.
Não, há caminho, há construção!

Subjectivem a análise, os conceitos, TUDO!
Chega!
Para que sirvo?
Alguma vez fomos por outro caminho se não em frente?

Não!
Revolução! (Industrial? Agrícola?)
Que se lixem as revoltas!
Cravos?
Não matem as florzinhas!

Sintam mais! Sintam tudo!
Percam-se nos jardins, nas ruas.
Beijem a quem queiram beijar.
MAIS!
Deixem-se entregar.

Vivam.
Isto é tudo unidireccional.
Deixemo-nos de maledicências.
Morte ao senso comum!

Camarada?
Não!
Amigo?
Talvez!

Não se agrupem por ideais!
Agrupem-se por sentimentos!