27/03/2010

É o mote da perdição
Que nos deixa e nos prende
Um coração sozinho
Um corpo vandalizado
Um ser abandonado
O sorriso na ambição

É o mote da criação
Que nos faz tão bem-aventurados
Um copo partido
Um cigarro fumado
Uma tela molhada
O sorriso na vontade.

É o mote do medo
Que nos quer tão longe e tão perto
Uma cidade vizinha
Um beijo não dado
Uma corda no pescoço
O sorriso na calada.

É o mote da saudade
Que não quer que a matem
Uma contagem decrescente
Um abraço que não se deu
Um país enterrado
O sorriso na ansiedade.

É o mote da ilusão
Que nos deixou além de nós
Uma história contada
Um olhar de criança
Um copo vazio
O sorriso na verdade.




15/02/2010


Continuo assim, calada, porque o nosso silêncio também é bom.
Amanhã o olhar dirá tudo que alguma vez ficou por dizer.
Porque o mundo está muito além dos passos que damos em voos rasteiros.
E eu já não pertenço à verdade, sou das ideias.
Quando quiser ficar, terei de ir e isso chega.
Não haverão horas certas nem será conveniente amar.
As palavras não chegarão para dizermos adeus, imagina os gestos.
Por isso, fico assim calada, à espreita de um ruído do qual escolho fugir.
E tu sabes como eu nunca pertenci aqui.

01/02/2010

Há dias destes, em que acordo na possibilidade e adormeço na certeza.
E é bom sentir que Deus ou a sorte ou até o mérito, me sorriu, com um sorriso daqueles beeeem grandes.
Saber que, apesar de tudo, isto estava reservado para mim e que, vá lá. eu até merecia.
E salto, choro, grito, tudo!
Pois é, há dias incríveis.
Eu só tive um dia assim até hoje.
Um dia que se vai transformar em 5 meses.

ATÉ LOGO PORTUGAL, VOU VIVER À GRANDE E À BRASILEIRA!



20/01/2010


Tudo o que marca demora.
Demora até sermos velhos nos braços um do outro.
Os lençóis atirados aos pés da cama e uma manhã por vir.
Tomara.

Tudo o que demora marca.
Não vai embora com o fim da tarde das primaveras.
Fica a ferver-se no salgado do que nasceu para além do vidro baço.

Tudo o que sinto marca e demora.
E as mãos já só pousam uma na outra à procura da ternura e de um pouco de juventude.
Pelo menos.

E usamo-nos do tempo como se não fosse mais parar.
Estivemos além da espera.
Além da verdade.
Porque tu nunca mereceste amar.
As estrelas.

Perdeste os sentidos das imensas cantigas pelo eco das cordilheiras que víamos da janela.
Passavas a mão pelas bochechas perdidas no sorriso que sorria para ti.
E tudo era "pronto...que seja".

Doiê, doiá, tzeió, doiá, derodoiê, doiá.

Ou o corpo ou a alma.
A alma está ausente.
Toma lá o corpo.

04/01/2010

quebra a infinita gentileza das rosas e atira-mas contra o rosto

despreza a essência dos corpos que outrora se acalentaram na energia

acaba com a dúvida do que não aprendeste a saber

a pureza das horas pálidas acabou

a honra vive trilhada em paixão

as mãos com que acenas não são as minhas

a voz numa chanson d'amour calou

que delícia é comer a saudade aos poucos

mas toda de uma vez

à flor dos dedos entrego-te aos dias




infinitamente incoerente



02/01/2010

Invadiu-me o sono,
E demorou-se até fazer-se em luz na escuridão.
Foi um abraço, apenas,
Que da água me salvei para viver.

Foste abraço, tanto.
E eu o beijo no teu ombro quente.

O berro do lado de fora.
A dor aguda do lado de dentro.
O sonho do lado do sono.
E tu do lado do medo.

E nos lábios salgados,
Guardei-te um segredo.

Pede-me de volta ao tempo,
Que as palavras são doces.

E aí, fez-se Verão, finalmente.

23/11/2009


é sobre mim mas para ti que escrevo
pela confusão das palavras não ditas
do que movo e espanto
é sobre mim mas para ti que escrevo

é sobre ti mas para mim que canto
e choro na ideia de um dia não poder mais pranto
o corpo, ser
sim é para ti meu canto

é sobre mim e para mim imagem
que já nada vê no reflexo
do pouco que fui pensando
do muito que pensei fazendo
ser só isto, apenas

é sobre ti e para ti que finjo
a mentira que é, tudo, a verdade
do brilho encanto
dos passos que fui dando
é para ti que falo

é sobre tudo que rasgo
a poesia que outrora percebi
as mãos, tanta tinta, os dedos
levemente crio o novo
é sobre ele que invento o sonho

é sobre o sinto que não quero
e é sobre o pedaço que vou tendo
é sobre o sobre que vivendo passo
e é sobre o foi, que não sei ser
mas é sobre quem nunca vou ter

e é por ninguém que comigo danço

10/11/2009

25/10/2009

o meu amor perdeu a vida.
foi a vida que perdeu o meu amor.

22/10/2009


Lá e sempre,
O rio vai dar ao mar
E todo ele é maré, gente e canção.

O rio é de Janeiro, do ano inteiro
Dos dias e das demais medidas do tempo
Só não cabe nas palavras.

Saravá ao povo que se deixa posar, sem querer
Às grandes criações do poeta.

Saravá ao poeta.


O rio é mulher formosa
E a mão que enxuga a lágrima no rosto,
Mas é o sorriso que sai pelas ruas.

O rio só é homem quando se observa orgulhoso.

O rio é sempre foz,
Prestes a desaguar
A explodir, quem sabe.

E deixo os olhos pousar
E o corpo mergulhar nesse rio
Como se fosse para sempre o último abraçar.

O rio bebe-se aos poucos,
Gota a gota, pinga a pinga,
Mas bate rápido
É 100% alcoólico.

O rio é criança
Quando dança de pés descalços
Mas chora,
Órfão de pai.

Esse rio cheira a suor
A beijos misturados
Corpos incendiados
De alegria e desespero.

De ironia.

Os peixes desse rio não são peixes,
São polvos
Que nos agarram eternamente
E tingem os desejos de uma só cor.

O rio é longe,
E ficamos a vê-lo do pontão das objectivas.
Nunca é inteiro,
É afluente de si próprio.

O rio é cinza, poluído.
Verde, tijuca
Branco, vontade.
Amarelo, luz.
Azul, iemanjá.
Cor de pele, gente.

O rio é adúltero,
Corrompe-se,
Trai-se por gosto
E é eternamente pecado.

O rio é poesia,
E só o sei na canção.

O rio é sortudo,
Porque é maravilhoso por acaso.