Dizer adeus lembra-nos que as rosas são flores por pouco tempo. Um dia atiramo-las para um qualquer buraco moribundo na terra, pronta para as fazer florescer novamente. Aqueles que ficarem, uns mais vivos que outros, não temam os espinhos nem a maciez perversa das pétalas. Somos um, e um dia seremos um só. Cada vez mais sós, menos nós, mais os outros. Além da verdade, da saudade, do tempo. Seremos eternamente serenos, nem um pouco mais ou menos. Levaremos apenas o que não fomos.
02/03/2011
27/10/2010
10/10/2010
Nobres caminhos que revolvo sempre que chego cansada aos braços de quem já não mais me quer. Calando-se os sentidos, para o chão atiro sonhos suculentos e futuros certos. Ai quem dera um dia o desejo volte a mim, saudoso e carente. Um qualquer dia bem bailável, a dois, como pede o amor. Quero por momentos nem acreditar, acreditando porém. Quero uma mão para agarrar e um beijo sorrindo. Não espero, só quero e quero muito e tanto. E para mim basta este querer sossegado.
15/09/2010
Eu gosto mais dos dias sós e quietos, como domingos semanais que se esperam, entranham e embalam. Dias fáceis, sem pensamentos nem feitos triunfais. Mais uma vez serenos, reflexos de mim, como me deixas. Sentada no sofá, escutando a aflição dos outros que correm, deixas-me à ternura. Um dia hão-de subir pelas minhas pernas joaninhas. E tu, de longe, acenarás alegre por me veres entregue aos dias que contigo não tive.
30/08/2010
Remenda os dedos dos gestos do passado e a boca do que não querias dizer.
Mostra-me um pouco mais de mim que de ti se oprime e consola e suspira.
Agarra-me o ventre como se dele nascesses e repousa quieto, expulsando-te lento.
Esquece que existes e existe em mim, só agora.
E revela-te fugaz no momento e eterno no tempo.
Serena as dúvidas, acaricia-as como se delas gostasses.
Deixa-te livre, que o amor urge e precisa de nós, inteiros, escravos, canibais.
26/07/2010
São agora 6h45 da manhã e estou na Rodoviária do Rio de Janeiro. Sento-me, luto com a cadeira que não me deixa confortável por um minuto. Passo o tempo até as 8h entre as páginas da "Sociologia" e deliciando-me com a MPB.fm, que toca agora "Falando de Amor" do meu querido Tom Jobim. Sempre que viajo, apuro os meus sentidos. No Brasil, mesmo sem querer estou sempre de ouvidos bem abertos e observo com mais cuidado. Encontro afinidades e desconfortos diariamente. O Rio de Janeiro mostra-se tão controverso. É sorridente, fadado à alegria, mesmo quando não é alegre, dançado com os pés por entre qualquer samba, sentido pelas poesias de todas as Bossas, misturado pelas essências, pela distância, pelas cores, que afastam e aproximam as pessoas, todos os dias. O Rio é uma cidade de histórias de vida, de recortes de quotidiano, de fotografias, de momentos tão fiéis, mas tão traidores da sua realidade. Deixo aqui uma lembrança, até para mim mesma, de pessoas que me marcaram, que me deixaram sensível de alguma forma. Pessoas que não sei o nome e o rosto ficou agarrado ao passado, precisamente a este dia, 24 de Julho, na espera de um autocarro para Búzios. Mas também a todos os dias.
A todas estas pessoas, que não conheço, digo o que aqui se diz e que, mesmo sem qualquer sentido religioso, deixa que pelo menos os 5 minutos seguintes sejam passados com um pouco mais de coragem: "Deus vos abençoe!".
- O motorista de um taxi que canta e toca cavaquinho numa roda de samba.
- O "senhor bem vestido" que mal dizia Portugal a uns estrangeiros.
- O miúdo que me roubou a Coca-Cola. E o outro que chora sentado no passeio, agarrado as pernas, com três bolinhas no chão, à espera que o semáforo fique vermelho.
- O velho sorridente e simpático que me pede para fechar o fecho da mala porque só tem uma mão.
- O segurança que me responde "arriba" e não "em cima".
- O rapaz do quiosque que vê numa calculadora qual é o troco para 25R$ de uma nota de 50R$.
- A Leila que me recebe todos os dias com o enorme sorriso e diz: "Oi meu amor!"
A todas estas pessoas, que não conheço, digo o que aqui se diz e que, mesmo sem qualquer sentido religioso, deixa que pelo menos os 5 minutos seguintes sejam passados com um pouco mais de coragem: "Deus vos abençoe!".
13/06/2010
11/06/2010

Preciso de ti, solidão, só hoje, para expressar o outro.
E exponho-me, devagar e alegre.
Do tempo vivido recrio a forma e a cor.
Eternizo a lembrança e escondo, brincamos o branco.
Preciso de ti, cada vez mais, para desviar o mostro perigo.
O riso como espasmo de loucura: Vai, demora a não voltar!
E triste adormeço, nunca mais distante.
Não me olhes o rosto lavado de ti.
Preciso só mais de mim, florescendo aos poucos.
Hoje serei botão de qualquer flor.
E as palavras serão para sempre doces, por isso não me exijas o adeus.
Nem me colhas o canto primaveril.
Deixa-me precisando, que é do afecto que te deixo que um dia desabrocharei.
07/06/2010
Os sonhos da morte encerram o sentido só de um homem sentado na beira do banco de onde se vê a praia. O pachorrento bater do pé no chão denúncia a espera por alguém que não mais irá voltar. Estou perto, espreito e tento por momentos pensar este homem. E ele vive nele, não sabe que outros podem viver na sombra dos seus pensamentos. Será homem grande? Saibamo-lo só, inquieto mas paciente, no conforto da pedra aquecida pelo tempo, entre a paisagem finita dos seus olhos e de um passado tão ardente no sangue mas com uma certa descrença no amanhã. Ele pousa uma mão sobre a outra, talvez sinta saudade de quem sentava do lado dele e esperava todos os momentos com a mesma tranquilidade, segurando na sua mão, em carinho e amizade. Ele já não terá mais medo de estar só nem será mais vulnerável aos outros, ao que passa e não volta, ao que passa, pára e fica, para sempre, naqueles minutos ou em todos os outros, muitas vezes. Aprender a solidão é uma arte digna de poucos. Por isso, olho-o com um certo pudor.
02/06/2010
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